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AUGUSTO BOAL NA VENEZUELA
29-11-1990
Augusto Boal Foto: Correio IMS |
[Augusto Pinto Boal foi diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta brasileiro, uma das grandes figuras do teatro contemporâneo internacional. Wikipédia
Nascimento: 16 de março de 1931, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
Falecimento: 2 de maio de 2009, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro]
Ele andou pela Venezuela quando eu morava por lá. Era a época da “Revolução de 64” e Boal “amargurava” o seu exílio, depois de ter sido preso e torturado. “Amargurava” não era o que entendia por suas andanças pela Europa e América. Para este exilado era sempre “filhinho de papai”.
“— Sabe por que tu tá preso, cara? Porque tu anda pelo estrangeiro falando mal de nosso Brasil. Esquerdista vive na Europa, a gente é que trabalha, dá o duro. Sabe por que tu tá preso, não sabe? É porque tu vai lá pra fora sujar a imagem do Brasi, dizendo que aqui tem tortura...”
A cena patética, de humor negro, quase surrealista, fazia parte de uma peça teatral autobiográfica que Augusto Boal escreveu para denunciar a repressão militar.
O torturador com raiva do intelectual dependurado do “pau de arara” acusando-o de comunista anti-nacional, apátrida, a serviço da ideologia exótica.
Mas a peça de Boal não era só auto-biográfica — (como se chamava mesmo?) — mas também autocrítica, uma reflexão desapaixonada do processo revolucionário do final da década de 60.
A certa altura, Boal insinua que “a metade que está presa aqui — na cela do DOI-CODI — “foi denunciada pela outra metade que ficou lá fora”. As lutas entre facções ideológicas seriam aliadas constantes da própria Ditadura, enfraquecendo a resistência ao regime de 64.
A imprensa radical não gostou. Teatro de denúncia era para criticar o establishiment, não era para servir de “quinta coluna”, para o divisionismo. A peça não seria revolucionária. Pior do que isso, era revisionista. E não havia nada mais execrável que o mercusianismo, o esquerdismo inconsequente, hyppie.
Voltei a encontrar-me com Boal na Dinamarca, no início de 1976. Estava dando um curso relâmpago de teatro participante. Não sei que nome dava àquela experiência de encenação com o público, sem texto predeterminado, espécie de happening em que os “alunos” atuavam, criando situações e cenas livremente. Interessante. Participei do ato lúdico com minha amiga Annete Skov e divertimo-nos à beça. Valeu!
Pouco tempo depois a música “Mulheres de Atenas” entrou nas paradas de sucesso. A música era do Chico Buarque e a letra do Boal. Os tempos eram de “distensão política“ e,
depois, ele voltou para o Brasil. Nunca mais soube de suas performances.
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https://www.pstu.org.br/arena-conta-zumbi-a-luta-negra-num-marco-do-teatro-brasileiro/
Comprei agora um “compact disc” da peça “Arena conta Zumbi”, que ele escreveu com Gianfresco Guarnieri, com música de Edu Lobo, que era a grande revelação, em 1965, da fase “participante” da bossa nova. O lançamento, comemorativo dos 30 anos da bossa nova, revelou uma gravação original, com suas virtudes e imperfeições, com as vozes de Lima Duarte, Dina Sfat e Marilia Medalha. Uma preciosidade.
O samba ao compasso da bossa nova, criou um clima dramático ao espetáculo. Talvez tenha sido a primeira vez que se fez uma peça musical eminentemente brasileira, do tema à direção inovadora (do Boal), da música aos cenários. Arena conta Zumbi foi o marco inicial para outros espetáculos do gênero.
É fácil entender que o sucesso deveu-se não apenas à excelência do texto, à qualidade da música, da direção e da interpretação, mas também, e sobretudo, pela denúncia, pela exaltação da liberdade, pelo chamamento à luta, no momento exato em que a Ditadura instalava-se no Brasil. Antes que ela instaurasse a censura mais castradora que jamais vivera a cultura brasileira.
A história do quilombo de Zumbi era um tema adequado para a agitação. E ainda havia a denúncia da questão do negro, embora não existissem negros no palco. Nem havia necessidade, pois os atores brechtianamente contavam a gesta libertária, não interpretavam personagens (no conceito stanislavskiano do termo).
A peça continua fascinante, forte, rica de ideias, simples mas inovadora. E, ainda, moderna. A bossa nova continua vigente, atual.
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